Pequeno em extensão, mas gigante em belezas naturais, o Espírito Santo foi uma das grandes surpresas da nossa redação. Um dos poucos estados brasileiros que ainda faltavam em nosso roteiro e, depois da experiência, ficou a pergunta inevitável: por que demoramos tanto para conhecer?
Embora esteja entre os estados com melhor qualidade de vida do país, o Espírito Santo ainda aparece timidamente nos rankings dos destinos turísticos mais visitados do Brasil. E talvez aí esteja um dos seus maiores encantos: é um lugar que surpreende justamente por ainda não ter sido descoberto em massa. O estado reúne praias, montanhas, gastronomia marcante, cultura e hospitalidade em um único destino.
E os números mostram que esse potencial vem crescendo. Em 2025, o turismo capixaba registrou aumento de 9,2% no primeiro trimestre em comparação ao mesmo período do ano anterior, colocando o Espírito Santo entre os estados com maior crescimento do setor no país. Já em 2024, o estado conquistou o terceiro lugar no Traveller Review Awards como um dos mais acolhedores do Brasil.
As opções de viagem são variadas: litoral, serra, cidades históricas e experiências gastronômicas. Nesta reportagem, vamos nos concentrar em Vitória, Vila Velha e Guarapari — regiões que visitamos durante nossa passagem pelo estado. Mas já adiantamos: o Espírito Santo oferece muito mais do que conseguimos explorar em uma viagem curta, de quatro dias.
Vitória: entre a baía e o mar
Vitória tem pouco mais de 340 mil habitantes e está situada na Ilha de Vitória, cercada pela Baía de Vitória e pelo Oceano Atlântico. A capital possui um relevo marcado por morros — cerca de 40% do território é formado por elevações — e clima tropical quente, com temperatura média anual em torno dos 25°C.
Por conta da atividade portuária, muitas praias da capital não são indicadas para banho. Por isso, é comum que moradores atravessem a ponte nos fins de semana rumo às praias de Vila Velha, distante apenas 10 quilômetros.
Praia de Camburi – Praia de Camburi é a principal praia urbana da cidade e uma excelente opção para caminhadas, esportes e lazer. O extenso calçadão com ciclofaixa, os quiosques e a atmosfera movimentada fazem da região uma ótima escolha para hospedagem em Vitória.
Além da estrutura à beira-mar, vale visitar o Píer de Iemanjá, próximo à Ponte de Camburi, onde está a estátua da padroeira dos pescadores — um dos cenários mais bonitos para fotos ao pôr do sol.

Paneleiras de Goiabeiras – Conhecer as Paneleiras de Goiabeiras é mergulhar em uma das tradições culturais mais autênticas do Espírito Santo.
Fundada em 1987, a associação preserva o modo artesanal de fabricação da tradicional panela de barro capixaba, reconhecida como patrimônio cultural imaterial brasileiro. As peças seguem técnicas indígenas transmitidas de geração em geração: o barro é retirado da própria região, moldado manualmente e queimado em fogueiras, processo responsável pela coloração escura característica.
Além de acompanhar de perto essa tradição, os visitantes podem adquirir panelas diretamente das artesãs — um verdadeiro símbolo da culinária capixaba, indispensável no preparo da famosa moqueca.

Vila Velha: praias, história e belas paisagens
Vila Velha foi nossa base para os passeios de praia. Embora tenhamos nos hospedado em Vitória, a dica para quem prefere ficar perto do mar é escolher Vila Velha, que possui praias próprias para banho, boa estrutura turística e acesso rápido à capital.
Praia da Sereia – Curtimos um dia na Praia da Sereia, localizada no bairro Praia da Costa. Com águas calmas e cristalinas, é ideal para famílias e também para a prática de esportes como stand up paddle e canoa havaiana.
Ali, aproveitamos a estrutura de barracas de praia e almoçamos no tradicional restaurante Atlântica, conhecido há décadas pela moqueca capixaba servida aos turistas que visitam a região.

Farol de Santa Luzia – Entre os passeios indispensáveis está o Farol de Santa Luzia, monumento histórico inaugurado em 1871 e considerado um dos cartões-postais do estado.

Construído com peças de ferro fundido trazidas de Glasgow, na Escócia, o farol possui 12 metros de altura e uma luz que alcança até 62 quilômetros. A vista para o mar é espetacular e o local rende ótimas fotos. Há ainda uma lojinha com souvenirs para os visitantes.

Convento da Penha – Outro passeio imperdível é o Convento da Penha, principal marco histórico e religioso do Espírito Santo.
Fundado em 1558 no alto de um penhasco de 154 metros, o convento oferece uma das vistas panorâmicas mais bonitas da Grande Vitória (foto destaque), incluindo a baía, as praias e a famosa Terceira Ponte, que liga Vitória a Vila Velha.
A subida pode ser feita a pé, mas exige preparo físico. Para quem prefere mais conforto, há opções de vans e trenzinhos que levam os visitantes até o alto. No local, também existe um café e uma pequena loja de lembranças.

Fábrica da Garoto – A Garoto abriga um dos pontos turísticos mais visitados do estado. A tradicional fábrica de chocolates, em operação desde 1929, é considerada a maior da América Latina e uma das maiores do mundo.
Além da loja com produtos exclusivos e souvenires, existe o famoso Chocotour — visita guiada que apresenta a história da marca e de chocolates icônicos, como o bombom Serenata de Amor. Quando estivemos lá, a visita à fábrica estava temporariamente suspensa, mas o museu e a loja continuam funcionando normalmente.
A loja, inclusive, traz opções de bombons por quilo e sabores difíceis de encontrar, como os de kitkats de algodão doce e churros.

Gastronomia: o verdadeiro berço da moqueca
Em lojas de souvenirs espalhadas pelo estado, uma frase aparece com frequência nas camisetas: “Moqueca é capixaba. O resto é peixada.”
A brincadeira resume bem o orgulho dos capixabas em relação ao prato mais emblemático da culinária local. A rivalidade gastronômica com a moqueca baiana é antiga: enquanto a versão baiana leva dendê e leite de coco, resultando em um sabor mais intenso e cremoso, a moqueca capixaba aposta na leveza e no protagonismo do peixe fresco.
Na receita tradicional do Espírito Santo entram azeite de oliva, tomate, cebola, alho, coentro e limão — sem leite de coco e sem dendê.

A origem do prato remonta às tradições indígenas. O termo “moqueca” deriva de “moquém”, técnica ancestral de assar peixes sobre grelhas de madeira. Com o passar do tempo, ingredientes portugueses e africanos foram incorporados à culinária local, criando a identidade única da moqueca capixaba.
Provamos o prato em um dos restaurantes mais tradicionais de Vila Velha, o Atlântica. Ambiente acolhedor, atendimento impecável e uma moqueca memorável. E um detalhe especial: o proprietário e fundador, seu Osmar Bodevan, ainda acompanha de perto o funcionamento da cozinha.
Outro destaque gastronômico foi o famoso Kieber, petisco típico local feito de frango empanado com queijo, bastante popular entre os moradores. Todos os motoristas de aplicativos recomendavam experimentar — e realmente vale a prova.
Provamos no Tantra Vitória, restaurante e beach club à beira-mar com estrutura de lounges, piscinas e um cardápio que mistura referências orientais, mediterrâneas e brasileiras. Um dos poucos espaços nessa região da beira-mar que funciona tanto durante o dia quanto à noite.

Guarapari: praias para todos os estilos
Guarapari está localizada a cerca de 50 quilômetros ao sul de Vitória e reúne mais de 50 praias espalhadas pelo litoral. Por isso, vale pesquisar antes qual combina mais com o seu perfil.
Praia dos Namorados – Escolhemos passar o dia na Praia dos Namorados. Inicialmente, a ideia era ficar na Praia das Castanheiras, bastante conhecida pelas árvores que proporcionam sombra natural. Porém, como estava muito cheia, seguimos caminhando e encontramos a Praia dos Namorados — mais tranquila, reservada e igualmente bonita.
A estrutura de barracas é boa, com atendimento diretamente na areia. O aluguel de guarda-sol e cadeiras gira em torno de R$ 80 para o dia inteiro.

Antes de ir embora, ainda vale passar pela Praia das Castanheiras e pela famosa Praia da Areia Preta (foto abaixo), conhecida por suas areias monazíticas escuras, associadas a propriedades terapêuticas e medicinais.

O Espírito Santo talvez ainda não esteja entre os destinos mais badalados do Brasil — mas talvez seja exatamente esse o segredo do seu charme. Um estado acolhedor, bonito, saboroso e surpreendente, onde é possível encontrar praias paradisíacas, tradições culturais preservadas e uma gastronomia que faz qualquer viagem valer a pena.
texto e fotos – marina cotovicz




