Quatro jovens do Senai Paraná encerraram no domingo (27), em Xangai, na China, uma jornada de anos de preparação com um reconhecimento de padrão mundial. Erán Martínez Ramos, Davi da Silva Aleixo Ignacio, Kaique William Ventura Camacho e Kauan Henrique Martinello Nazario conquistaram Medalhas de Excelência na WorldSkills Shanghai 2026, maior competição internacional de profissões técnicas.
O resultado significa que quatro dos cinco representantes paranaenses na delegação brasileira alcançaram o patamar de excelência estabelecido pela WorldSkills em suas respectivas ocupações. A Medalha de Excelência é concedida aos competidores que atingem 700 pontos ou mais na avaliação internacional, mas não ficam entre os ganhadores das medalhas de ouro, prata ou bronze. É, portanto, um reconhecimento de que o desempenho apresentado durante as provas alcançou o padrão mundial de excelência definido pela competição.
Os quatro reconhecimentos vieram em áreas bastante distintas: Construção em Alvenaria, Design de Mídias Interativas Digitais, Tecnologia Optoeletrônica e Tecnologia Automotiva. Juntas, elas ajudam a mostrar a amplitude da educação profissional contemporânea, que reúne desde competências tradicionais da indústria e da construção até novas tecnologias e atividades digitais.
O desempenho ganha dimensão diante do tamanho da competição. A 48ª WorldSkills reuniu 1.400 competidores de mais de 70 países e regiões, distribuídos por 64 ocupações. Durante quatro dias, os jovens executaram projetos técnicos sob pressão de tempo e seguindo critérios internacionais de qualidade. A WorldSkills é realizada a cada dois anos e reúne jovens que chegaram ao mundial depois de processos de seleção nacionais e regionais.
Para o Paraná, as quatro Medalhas de Excelência representam mais do que o desempenho individual dos competidores. Colocam jovens formados no estado diante das mesmas referências utilizadas para avaliar profissionais de dezenas de países, em uma competição que funciona também como espaço de intercâmbio de métodos, tecnologias e padrões de formação profissional.
Da sala de aula em Curitiba ao padrão mundial
A história de Davi da Silva Aleixo Ignácio ajuda a traduzir o caminho necessário para chegar a esse nível. Há cerca de quatro anos, disputar uma competição internacional nem passava pela sua cabeça. Sua entrada no Senai aconteceu depois que a mãe encontrou uma oportunidade de curso gratuito. Davi tentou uma vaga em Mecânica, não conseguiu e encontrou no curso Técnico em Edificações outro caminho.
Ao conhecer a WorldSkills vieram então etapas estaduais, nacionais e internacionais, horas de treinamento e uma rotina em que o domínio técnico precisou caminhar ao lado da preparação física e emocional. Davi define sua trajetória pela persistência e pela necessidade de aprender a trabalhar mesmo quando as condições não eram ideais.
Em Xangai, essa preparação foi colocada à prova no nível mais alto da competição. “A experiência foi fantástica, incrível. Foi uma semana bem tensa, bem puxada. Acho que, para mim, foi a semana mais puxada de treinamento até hoje”, conta Davi.
Quando olha para trás, o competidor ainda parece surpreso com a distância percorrida. “Há quatro anos atrás jamais imaginaria estar aqui na China disputando o Mundial pelo Brasil. Foram com certeza os melhores anos da minha vida. Tudo que eu passei é algo que vai marcar a minha vida para sempre”, afirma.
A competição também mudou sua compreensão sobre o próprio trabalho. Davi destaca entre os aprendizados o entendimento sobre excelência, comportamento profissional e maturidade.
Conhecimento que atravessa fronteiras
Para Erán Martínez Ramos, competidor de Design de Mídias Interativas Digitais, estar entre profissionais de diferentes partes do planeta acrescentou outra dimensão à formação técnica: a possibilidade de observar como pessoas de diferentes culturas enfrentam os mesmos desafios profissionais. “Foi incrível, principalmente pela troca de culturas entre cada um dos países participantes da minha modalidade”, afirma.
Além da experiência internacional, Erán destaca ganhos diretamente aplicáveis ao trabalho. Segundo ele, o treinamento ensinou a organizar melhor processos, produzir em menos tempo e buscar maior qualidade, além de desenvolver controle emocional para enfrentar prazos curtos e situações de pressão.
A própria trajetória do jovem dentro da WorldSkills mostra a capacidade de transitar entre diferentes campos tecnológicos. Ele participou pela primeira vez da etapa estadual da WorldSkills na ocupação Indústria 4.0 e posteriormente migrou para Design de Mídias Interativas Digitais. No novo campo, passou a desenvolver conhecimentos ligados a design, marketing, edição de fotos e vídeos e construção de identidade visual. “Profissionalmente eu consegui muito networking, com certeza, do mundo inteiro. Vou conseguir aplicar todos os conhecimentos que tenho com a WorldSkills”, afirma.
Uma viagem de três anos até Xangai
Para Kaique William Ventura Camacho, a WorldSkills começou menos como uma busca por medalhas e mais como uma oportunidade de aprofundar seus conhecimentos profissionais. “Eu fui atrás da WorldSkills para aprimoramento profissional. Nunca pensei, de fato, que poderia passar para o Nacional ou que poderia ir para o Mundial. O motor principal foi realmente a vontade de estudar, de querer me aperfeiçoar cada vez mais na minha profissão”, conta.
O percurso acabou levando Kaique muito além do que imaginava. Além do aprendizado técnico, ele destaca a capacidade de trabalhar contra o tempo e administrar a pressão como competências que ultrapassam a competição. “Você realmente entra com suas perspectivas, com seu jeito de ser, e a competição muda a forma como você pensa. Não só no trabalho, mas como você também leva a vida”, afirma.
Pressão, técnica e resolução de problemas
Para Kauan Henrique Martinello Nazario, representante paranaense em Tecnologia Automotiva, o mundial foi um teste que ultrapassou a execução técnica. “São dias em que a gente é testado em todos os sentidos a todo momento. Tudo conta. O desempenho tem que ser impecável, tem a pressão psicológica, a questão da língua ser diferente. É uma grande dificuldade que a gente enfrenta”, relata.
Passando pela etapa estadual, seletiva nacional, WorldSkills Américas e, finalmente, pelo mundial, Kauan diz ter enfrentado desafios diferentes em cada uma delas e aumentado progressivamente o nível de exigência.
O aprendizado que ele leva da competição também interessa diretamente ao ambiente industrial. Para Kauan, ser submetido continuamente a problemas, frustrações e pressão mudou sua forma de reagir diante das dificuldades. “Você acaba não se abalando com coisas simples. Você não pensa em desculpa, você pensa em algo para resolver aquilo que está acontecendo”, explica.
Excelência que volta para o Paraná
As quatro trajetórias têm ocupações, cidades e histórias diferentes, mas convergem em competências valorizadas também fora da WorldSkills: capacidade de resolver problemas, precisão, organização, domínio técnico, trabalho sob pressão, adaptação e busca por qualidade.
É nesse ponto que o resultado conquistado em Xangai ultrapassa os quatro competidores.
A experiência acumulada durante anos de preparação e no contato com especialistas e competidores internacionais pode ser compartilhada com outros estudantes, técnicos de ensino e ambientes de formação. Os próprios jovens já projetam caminhos que incluem transmitir o conhecimento adquirido.
Assim, as quatro Medalhas de Excelência funcionam também como uma referência para a educação profissional desenvolvida no Paraná: em quatro áreas diferentes, jovens formados e preparados pelo Senai no estado conseguiram ultrapassar a pontuação que a WorldSkills utiliza para reconhecer desempenhos de nível internacional.
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