Localizada na Barra dos Remédios, no extremo oeste do Ceará no Brasil, a propriedade de 220 hectares se revela como uma das mais sensíveis iniciativas de hospitalidade do país. Mais do que um hotel boutique, a Casa Daia é a materialização de uma nova forma de viver, viajar e se relacionar com o tempo e com o território. Concebido a partir de um sonho pessoal, que encontrou eco nas urgências do presente e nas potencialidades do futuro, o projeto foi gestado com tempo, escuta e vínculos verdadeiros.
A Casa Daia propõe uma jornada que une luxo e simplicidade, conforto e raiz, exclusividade e pertencimento – sob os princípios do turismo regenerativo, da valorização da cultura local e da conservação ambiental. É um destino onde o hóspede é convidado a se desconectar do relógio e reconectar-se com o ritmo da terra, do vento, do mar e das comunidades. Seus três pilares são claros: natureza, tempo e cultura. Sua proposta de valor é apresentar novas formas de viver, viajar, comer, aprender e conviver em harmonia com todos os seres vivos.
A origem do território
A fazenda onde hoje está instalada a Casa Daia permaneceu, por décadas, sob o cuidado de uma família de agricultores locais que viviam do cultivo do roçado, da pesca artesanal e do manejo das carnaúbas. Eduardo Hargreaves, ex-executivo do mercado financeiro, visitou a Barra dos Remédios movido pela paixão pelo kitesurf. Ao conhecer a região, percebeu que aquele território guardava uma potência rara: biodiversidade abundante, comunidades tradicionais e uma beleza silenciosa que resistiu ao tempo. Ali nascia não apenas uma nova fase pessoal, mas um projeto de vida.

Vista aérea da Casa Daia. créd.divulgação
O tempo da terra
Antes de qualquer construção, foi feito um zoneamento ambiental completo, identificando os diferentes ecossistemas da área – da caatinga ao mangue, da praia ao rio. A partir disso, nasceu um projeto alinhado aos princípios do turismo regenerativo: mínimo impacto ambiental, integração com o entorno, valorização da cultura local e tempo como experiência. A ideia era clara: não apressar processos. Observar, escutar e pertencer.
Durante dois anos, o projeto foi sendo gestado com calma, reunindo parceiros e consultores em sustentabilidade e desenvolvimento comunitário.
O fundador: de Nova York à Barra dos Remédios
Eduardo Hargreaves construiu uma carreira sólida entre Rio de Janeiro, São Paulo e Nova York, onde viveu por anos. Após um burnout durante a pandemia, decidiu fazer uma pausa. Voltou ao Brasil em busca de reconexão. Ao chegar no litoral do Ceará, reencontrou o propósito: criar algo que unisse natureza, cultura e transformação. Influenciado por viagens a destinos como San Blas (Panamá), Holbox (México) e Cristalino (Amazônia), Eduardo imaginou um lugar que combinasse aventura, contemplação e impacto positivo. A princípio, a ideia era construir uma casa para uso pessoal. Mas o território pede mais: pede presença, cuidado e partilha.
Arquitetura enraizada
A arquitetura da Casa Daia foi desenvolvida em duas fases. A primeira, sob assinatura do Architects Office (Greg Bousquet) com interiores do Black Arquitetos, aproveita a antiga casa da fazenda, à qual foi adicionada uma estrutura de madeira leve para as suítes. Já a segunda fase, comandada pela UNA Arquitetos (Fernanda Barbara) e MNMA (Mariana Schmidt) no projeto de interiores, traz bangalôs modulares em CLT de eucalipto reflorestado, produzidos pela Crosslam e montados in loco pela Abaeté Construtora. Implantados em clareiras naturais, os bangalôs garantem ventilação cruzada, conforto térmico e mínima interferência no ecossistema. O sistema modular reduz drasticamente o desperdício e o impacto ambiental da obra, com design que valoriza o essencial e se funde ao entorno.

A área de convivência. créd.foto- Thiago Faquineli
Acomodações e hospitalidade
Ao todo, são sete acomodações: três suítes no corpo principal da casa (entre 35m² e 45m², com banheiras e varandas) e quatro bangalôs de 90m², com piscina privativa, deck, espaços de trabalho e banheiros amplos. A proposta de hospitalidade é o acolhimento total em que o hóspede é convidado a se sentir em casa. “A ideia é que ele se sinta à vontade para até abrir nossa geladeira”, comenta Eduardo.
Gastronomia que nasce da terra
À frente da cozinha está o chef Fábio Vieira, um dos nomes promissores na gastronomia brasileira. Com passagens pelo Santo Grão e Cristalino Lodge, Vieira traz uma cozinha autoral, com ingredientes locais e respeito absoluto à sazonalidade. O menu valoriza pescados e mariscos da região, vegetais nativos, produtos da agrofloresta e receitas ancestrais reinterpretadas com leveza. A cozinha é, também, uma ferramenta de transformação: conecta o hóspede ao território por meio do paladar e valoriza os saberes da comunidade – do feijão-verde à puba, da farinha artesanal ao caldo de sururu.

Espetos de polvo, com farinha da comunidade. créd.divulgação Casa Daia
Imersões, esportes e cultura viva
Na Casa Daia, o tempo é regido por três principais elementos: sol, vento e maré. É possível começar o dia com a coleta de sururu ao lado das marisqueiras, atravessar o mangue de caiaque, colher alimentos na agrofloresta, caminhar entre carnaubais e terminar a tarde velejando no mar. A programação de experiências é desenhada a partir das características únicas do território e dos desejos de cada hóspede, oferecendo desde vivências esportivas até imersões culturais profundas. Entre as atividades esportivas, destacam-se o kitesurf, o wing foil, o stand up paddle e os passeios de caiaque – sempre com orientação especializada e infraestrutura de ponta. Para os que preferem atividades em terra firme, há trilhas por dunas e áreas de vegetação nativa, além de circuitos de mountain bike.
As experiências imersivas se expandem para a agrofloresta participativa, onde é possível aprender sobre cultivo regenerativo, colher e plantar espécies nativas e acompanhar a rotina agrícola da fazenda. Oficinas de bioconstrução e permacultura também integram a programação, voltadas tanto para adultos quanto para famílias com crianças. No campo da cultura viva, o visitante pode participar da farinhada tradicional, vivenciar a queima da castanha sob a sombra dos cajueiros e acompanhar os saberes e fazeres de pescadores, marisqueiras, agricultores e artesãos da região. A observação da fauna e da flora locais completa essa imersão no território, que se revela em seus ritmos naturais e humanos. A proposta é que cada hóspede monte sua própria jornada — mais contemplativa ou mais ativa, sempre guiada pela natureza e pela escuta ao território.
Impacto positivo
Desde o início, a Casa Daia buscou diálogo com as comunidades vizinhas, como Picada Nova e Praia Nova. A equipe é formada por moradores locais, há capacitação contínua, compra de insumos da região sempre que possível e apoio a iniciativas como o projeto social de kitesurf Trip Solidário. Do ponto de vista ambiental, o hotel adota práticas de baixo impacto: zoneamento ecológico, separação de resíduos, agrofloresta, jardins filtrantes, captação de água da chuva, biodigestores e limitação ao máximo de uso de plástico descartável. Tudo com base em princípios regenerativos.
Um novo tempo para o turismo
Em tempos de transformações profundas e desafios ambientais urgentes, a Casa Daia surge como um farol. Uma alternativa concreta, sensível e sofisticada para quem busca mais do que descanso: busca sentido. Aliando excelência em hospitalidade com um compromisso real com a conservação da natureza e o fortalecimento das comunidades, o hotel se posiciona como um novo marco do turismo regenerativo no Brasil. Um lugar onde o luxo se mede pela qualidade das relações, pela integridade das escolhas e pela profundidade das experiências. Na Casa Daia, não há pressa, nem excesso. Há espaço. Para respirar, escutar, caminhar, aprender, pertencer. Um espaço onde o tempo não se conta no relógio — mas se sente na pele, na terra e no coração.
foto- destaque – O interior do quarto da Casa Daia. créd. Thiago Faquineli

