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Mercado imobiliário supera 700 mil corretores e muda perfil

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O perfil dos corretores de imóveis mudou. Além de ter o registro profissional regulamentado pelo COFECI-CRECI — sistema formado pelo Conselho Federal de Corretores de Imóveis e pelos 27 Conselhos Regionais, um em cada estado da Federação e no Distrito Federal —, é preciso ir além: ser multifuncional e multitarefa. Conhecer o público, ter repertório, estar atualizado com as novas tecnologias e construir relacionamentos presenciais e digitais são apenas algumas das novas “habilidades” que o corretor precisa ter para se destacar no mercado.

O número de profissionais também vem crescendo. Em 2025, o Sistema COFECI-CRECI reunia cerca de 650 mil corretores e 74 mil empresas imobiliárias. Em 2026, o sistema já registra mais de 700 mil profissionais no país, segundo dados divulgados pelo próprio COFECI. O aumento representa pelo menos 7,7% em relação ao número informado no ano passado. O COFECI reconhece que o mercado passa por uma nova fase, com mudanças na prospecção, na abordagem, na angariação e na venda de imóveis.

Mas o que mudou? A profissão acompanha a transformação mundial. A tecnologia passou a ocupar espaço em praticamente todas as etapas da comercialização de imóveis, da prospecção ao fechamento dos negócios.

É claro que o registro oficial, conquistado após curso obrigatório, continua sendo a porta de entrada para a carreira, mas a diferenciação passa cada vez mais pelo conhecimento do mercado e pela capacidade de entender o cliente. O novo corretor precisa ser camera-ready: confortável diante das câmeras, ativo nas redes sociais e capaz de transformar conhecimento do mercado em conteúdo.

“O mercado imobiliário será cada vez mais digital, mas permanecerá sempre baseado em confiança, relacionamento e experiência presencial. A vantagem competitiva pertencerá a quem conseguir integrar tecnologia e habilidades humanas”, afirmou o presidente do Sistema COFECI-CRECI, João Teodoro da Silva, em artigo publicado no site oficial da entidade. Para ele, o corretor de imóveis do século XXI não é apenas um especialista em ferramentas digitais. “É, sobretudo, um consultor de confiança.”

Perfil dos corretores

Dados de pesquisa realizada pelo Sistema COFECI-CRECI em 2024 (pesquisa mais recente sobre o tema) mostram que a corretagem passou a atrair profissionais mais qualificados, com maior presença de graduados e pós-graduados. O aumento da renda declarado pelos corretores em relação à pesquisa realizada 14 anos antes também indica maior atratividade da atividade.

A categoria reúne ainda profissionais com repertórios diversos. Segundo a pesquisa, 33% dos corretores afirmam falar outros idiomas. Quase um em cada cinco diz que sempre sonhou em trabalhar como corretor de imóveis. O grau de identificação com a profissão aparece nos índices de orgulho, de 96%, e de satisfação, de 83%.

A distribuição regional é concentrada. São Paulo reúne o maior número de corretores do país, enquanto o Paraná ocupa a quinta posição. A atividade ainda é predominantemente masculina — os homens representam 68% da categoria —, mas a participação feminina vem crescendo e alterando o perfil de uma profissão historicamente associada aos homens.

Da moda ao mundo dos imóveis

A mudança de perfil também pode ser observada na trajetória de profissionais que chegam ao setor vindos de outras áreas. É o caso de Kamille Cunha, que passou cerca de 25 anos no mercado de moda antes de migrar para o setor imobiliário.

Formada em Belas Artes, com estudos em Moda e MBAs em Varejo de Moda e Negócios, Kamille trabalhou com desenvolvimento de produtos, compras e gestão, atendendo marcas como Farm, Animale, Ricardo Almeida e Renner. A experiência também a levou a trabalhar com fornecedores na China.

A aproximação com o  mercado imobiliário começou durante a pandemia, quando voltou para Curitiba e retomou uma antiga paixão por imóveis antigos e reformas. Em 2020, comprou e reformou um apartamento e percebeu que poderia transformar o interesse em uma nova carreira. No ano seguinte, começou a atuar profissionalmente como corretora.

Kamille encontrou seu nicho nos imóveis com personalidade, especialmente apartamentos antigos, reformados ou com potencial de transformação. As redes sociais ajudaram a consolidar esse posicionamento. Ao começar a produzir vídeos dos imóveis, passou a atrair clientes diretamente pelas plataformas digitais.

“Consigo enxergar beleza e potencial em um imóvel abandonado. Gosto de perceber a história que ele carrega, imaginar a vida que aquele espaço ainda pode ter e identificar a valorização que pode alcançar quando recebe o cuidado e o olhar certos”, revela.

Modelo personalizado e conceito boutique

Hoje, à frente da Ka.Ka  Curadoria de Imóveis, empresa que fundou no ano passado, ela trabalha com uma média de 25 propriedades na carteira, em um modelo que se aproxima do conceito de “imobiliária boutique”, com foco em atendimento personalizado. A atuação é voltada para imóveis a partir de R$ 1,5 milhão, podendo chegar a propriedades de até R$ 30 milhões. Nesse segmento de alto padrão, parte dos imóveis é negociada de forma bastante discreta, no modelo “off-market”, sem ampla exposição pública.

Além de intermediar a compra ou a venda de uma propriedade, seu trabalho busca compreender o perfil, o momento e as necessidades de cada cliente, estabelecendo uma relação mais próxima e personalizada ao longo de todo o processo.

A corretora afirma que busca construir relacionamento de longo prazo. Em alguns casos, chega a recomendar que o proprietário não venda se entender que a decisão não é adequada naquele momento. O objetivo, diz ela, é estabelecer uma relação de confiança que vá além de uma única transação.

A experiência na moda também influencia sua atuação. O contato com desenvolvimento de produtos, tendências, precificação e diferentes públicos contribuiu para que Kamille desenvolvesse uma leitura própria dos imóveis e de seu potencial de transformação.

“A moda me treinou a ter um olhar mais crítico sobre o produto, a perceber detalhes e, principalmente, a entender para quem aquele produto faz sentido. Aprendi a analisar comportamento e público-alvo, e hoje levo esse olhar para o mercado imobiliário. Isso me ajuda a entender o potencial de um imóvel e onde realmente vale a pena investir”, conclui.

 

foto- Kamile Cunha. créd. Bruno Santos

 

 

 

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